Ada Maria B. G. Nunes*
Internacionalista pela Universidade Estadual da Paraíba • BRASIL
RESUMO:
O presente artigo analisa o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil em 2025 como expressão contemporânea da dependência estrutural que caracteriza a inserção das economias periféricas no sistema internacional. A partir da Teoria da Dependência e do debate sobre a transição para uma ordem multipolar, discute-se como medidas unilaterais de potências centrais — como a tarifa de 50% sobreprodutos brasileiros — revelam vulnerabilidades históricas, mas também abrem espaço para a reorganização estratégica do Sul Global. O texto demonstra que o cenário atual, marcado pelo fortalecimento de alianças como o BRICS+, pela busca de mecanismos financeiros alternativos e pela crescente interdependência entre países emergentes, cria condições para que o Sul Global avance como ator relevante na definição das normas econômicas globais. Assim, o tarifaço, embora negativo em seus efeitos imediatos, opera como catalisador para a ampliação do protagonismo político e econômico dos países periféricos.
Palavras-chave: Tarifaço; Sul Global; Dependência; BRICS; Multipolaridade; Comércio Internacional; Desdolarização.
ABSTRACT
This article analyzes the tariff shock imposed by the United States on Brazil in 2025 as a contemporary manifestation of the structural dependency that shapes peripheral economies within the international system. Drawing on Dependency Theory and debates on the shift toward a multipolar order, the study examines how unilateral actions by core powers—such as the 50% tariff on Brazilian exports—expose historical vulnerabilities while simultaneously creating opportunities for strategic reorganization within the Global South. The analysis shows that the current context, marked by the strengthening of alliances such as BRICS+, the development of alternative financial mechanisms, and the growing interdependence among emerging economies, provides conditions for the Global South to advance as a key actor in global economic governance. Thus, although harmful in the short term, the tariff shock acts as a catalyst for expanding the political and economic agency of peripheral nations.
Keywords: Tariff shock; Global South; Dependency; BRICS; Multipolarity; International Trade; Dedollarization.
1. INTRODUÇÃO:
A decisão do governo norte-americano, em 2025, de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros — medida amplamente conhecida como tarifaço — reacendeu debates sobre a vulnerabilidade comercial dos países periféricos e sobre a urgência do Sul Global conquistar maior autonomia estratégica nas relações internacionais. Como destacou o governo norte-americano ao justificar o decreto, tratava-se de uma medida de “proteção da segurança nacional” (U.S. Government, 2025), revelando mais uma vez o uso político do comércio por parte de potências hegemônicas. A vulnerabilidade exposta pelo tarifaço confirma o que autores da Teoria da Dependência, como Dos Santos (1978), já afirmavam: que as economias periféricas têm sua dinâmica condicionada por decisões externas, sendo estruturalmente vulneráveis às pressões e sanções dos países centrais. Assim, este artigo utiliza destes argumentos baseados no TCC da autora, articulando-os com o cenário atual para analisar como o tarifaço revela não apenas a fragilidade do modelo dependente, mas também a oportunidade histórica para o Sul Global emergir como centro de decisões econômicas e políticas no sistema internacional.
2. O TARIFAÇO COMO EXPRESSÃO DA DEPENDÊNCIA CONTEMPORÂNEA
A sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros afetou aproximadamente 35,9% das exportações para os EUA (Reuters, 2025). Como consequência, setores como calçados, agroindústria e rochas ornamentais sofreram demissões e cancelamento de pedidos (Brasil de Fato, 2025). Esse cenário materializa a tese clássica de Theotonio dos Santos (1978), segundo a qual a dependência se manifesta quando “o desenvolvimento de determinadas economias está subordinado à expansão de outras”. Em outras palavras, decisões unilaterais dos EUA repercutem diretamente sobre o emprego, a produção e a
balança comercial brasileira. Da mesma forma, Marini (1973) explica que países periféricos, ao integrarem-se de maneira subordinada ao mercado mundial, tornam-se reféns das regras impostas pelos centros hegemônicos — algo evidente quando tarifas, sanções ou mudanças políticas externas impactam desproporcionalmente suas economias. O tarifaço, portanto, não é um acontecimento isolado, mas parte de um padrão de coerção econômica que reafirma a posição subalterna da periferia na hierarquia global.
3. A RECONFIGURAÇÃO DO SISTEMA GLOBAL E A OPORTUNIDADE PARA O
SUL GLOBAL
3.1. Crise da hegemonia estadunidense
Diversos autores assinalam que o sistema liderado pelos EUA passa por um processo de erosão. Cox (1986) destaca que hegemonias entram em declínio quando deixam de controlar os mecanismos estruturais da economia mundial. Hoje, como apontam dados do FMI (2021), a participação dos EUA no PIB global em PPC caiu ao menor nível em décadas. Somam-se a isso o uso recorrente de sanções econômicas e instabilidade na política externa norte-americana, fatores que enfraquecem sua legitimidade. Wallerstein (1996) reforça que mudanças na hegemonia abrem espaço para o surgimento de novos polos de poder — cenário no qual China, Índia e BRICS+ emergem como alternativas.
3.2. Avanço institucional do Sul Global
Para Amin (2005), o imperialismo molda estruturas de dominação que garantem aos centros controle financeiro e tecnológico. Porém, ele também afirma que novas coalizões Sul-Sul podem romper gradualmente esse padrão se investirem em instituições próprias. Isso já ocorre: maior comércio entre países emergentes; expansão do BRICS e criação de sistemas como BRICS Pay; adoção crescente de swaps cambiais e acordos sem dólar; fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Como afirma Batista Jr. (2024), a construção de instrumentos próprios de liquidação financeira é essencial para que o Sul Global “reduza a vulnerabilidade diante de medidas unilaterais de Washington”. Nesse sentido, o tarifaço funcionou como um catalisador, acelerando iniciativas regionais e multilaterais que buscam autonomia comercial.
4. A CENTRALIDADE POTENCIAL DO SUL GLOBAL
4.1. Mudança no eixo do comércio mundial
O comércio do Brasil com BRICS já superou o comércio com EUA e UE somados (CNN Brasil, 2024). Outras regiões — Oriente Médio, África e Ásia Meridional — também fortalecem parcerias horizontais. Isso confirma a análise de Bai (2024), segundo a qual o “Sul Global tornou-se fornecedor indispensável de energia, alimentos e manufaturas para o sistema mundial”, razão pela qual países emergentes passam a ter maior capacidade de barganha.
4.2. Reorganização das cadeias produtivas
A busca global por diversificação de cadeias produtivas — acelerada por tensões geopolíticas — beneficia países emergentes. Como mostra Ocampo (2017), momentos de crise no sistema internacional frequentemente abrem janelas de oportunidade para economias periféricas ampliarem sua relevância produtiva. Um tarifaço como o imposto aos brasileiros reforça, paradoxalmente, o movimento
de empresas internacionais em buscar parceiros não alinhados a disputas entre potências.
4.3. Possibilidade de influência normativa
A vulnerabilidade comercial do Sul Global é também resultado da falta de participação real na definição das normas do comércio internacional. Ao fortalecer coalizões plurilaterais, esses países podem:
● propor novas regras;
● contestar sanções unilaterais;
● construir consultivos econômicos próprios;
● democratizar espaços decisórios globais.
Como afirma Pecequilo (2023), o BRICS representa uma “tentativa civilizatória de deslocar o eixo decisório do Ocidente para um mundo multipolar”.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos não apenas afetou exportações brasileiras e setores produtivos específicos. Ele expôs de maneira evidente as contradições da ordem econômica internacional e a fragilidade da posição periférica. Com base na Teoria da Dependência, o episódio pode ser entendido como manifestação contemporânea do poder estrutural norte-americano — mas também como um gatilho histórico para o fortalecimento das alianças do Sul Global. Se conseguirem consolidar mecanismos financeiros próprios, ampliar integração produtiva e articular um projeto de desenvolvimento autônomo, os países do Sul Global podem transformar vulnerabilidade em força e tornar-se decisores centrais na ordem mundial emergente.
REFERÊNCIAS
AMIN, Samir. O Imperialismo, passado e presente. Tempo, v. 9, n. 18, 2005.
BAI, Gao. BRICS e o futuro da ordem financeira internacional. Wenhua Zongheng, 2024.
BATISTA JR., Paulo Nogueira. BRICS: como chegar a uma nova moeda de reserva internacional. Brasil de Fato, 2024.
BRASIL DE FATO. Tarifaço de Trump gera demissões no setor exportador brasileiro. 2025.
CNN BRASIL. Brasil vende mais para BRICS do que EUA e UE juntos. 2024.
COX, Robert. Social Forces, States and World Orders. Millennium, 1986.
DOS SANTOS, Theotonio. O Estruturalismo e a Teoria da Dependência. 1978.
FIORI, José Luís. O Poder Americano. Vozes, 2004.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. 1973.
Ocampo, José Antonio. Resetting the International Monetary (Non)System. Oxford University Press, 2017.
PECEQUILO, Cristina. Entrevista à BBC e análises sobre BRICS. 2023.
REUTERS. Brazil sees 35.9% of exports to US facing steeper tariff. 2025.
U.S. GOVERNMENT. Executive Action on Tariff Increase. Washington, 2025.
WALLERSTEIN, Immanuel. After Liberalism. 1996.
*Internacionalista pela Universidade Estadual da Paraíba










